Há ou não mais e melhores Agentes Imobiliários Profissionais?

Pergunta que tendencialmente muitos players do setor respondem que sim, e isso é positivo, mas será podemos responder com base em dados e certezas?
Em Portugal, o mercado imobiliário é opaco pela resistência ao tratamento e produção de dados, e a mediação imobiliária, partilha das mesmas características e diria até de forma mais acentuada.
A perceção sobre dados desagregados ou inexistentes referentes a profissionais deste setor, faz com que a resposta à pergunta sobre se há de facto mais e melhores Agentes Imobiliários Profissionais em Portugal seja uma pergunta difícil de responder, até porque a qualidade de serviço, não se pode basear apenas em número de transações ou valores que estas produzem.
A resposta é muitas vezes elaborada com base em experiências pessoais e case studies, mas acreditando que há cada vez melhores profissionais, gostaria de facto de ter a certeza para poder responder com confiança e passar essa mesma confiança para quem contrata ou ewstá em processo de decisão de contratação deste serviço.
Começamos pela base, quantos agentes imobiliários existem em Portugal?
Não se sabe, pois não há registo nem tratamento de dados, não se sabe se são homens ou mulheres, qual a idade média, quais as suas habilitações, tempo na atividade, experiência, formação, competências e resultados que possam ser comparáveis, não apenas com uma amostra, mas com todo o setor. Não se sabe por exemplo e de forma alargada, quantos entraram, quantos saíram e porque saíram, não se sabe o que atraí, o que retém .
De facto, os únicos estudos a que podemos ter acesso (muitas vezes apenas interno) são os das próprias marcas de mediação imobiliária que têm maior quota e que geralmente atuam através de um modelo de franchising. A divulgação de alguns números de cada marca, dão uma orientação sobre esta atividade, mas não a representam na totalidade.
Por exemplo, na última contagem que fiz através de dados obtidos pelos sites das marcas: RE/MAX, Century 21, KW, ERA e Zome como marcas com maior presença e dados públicos divulgados, contei 23.405 Agentes Imobiliários ativos, sendo que este número acaba por sofrer flutuações constantes devido à rotação natural no setor (dados estes que também não temos como públicos ou agregados).
Num dos mercados mais evoluídos do mundo para este setor, o norte americano, tudo é medido.
As Associações do setor e o próprio estado têm uma preocupação enorme na obtenção de relatórios de atividade, pois se pensarmos bem, é a atividade que pela sua quota face à venda do próprio ao próprio neste país, é responsável por 90% das transações imobiliárias residenciais (dados NAR). Sendo o imobiliário um sector crucial para a economia Norte-Americana, é fundamental perceber como se caracteriza e comporta e isso incluí perceber quem são realmente os profissionais do setor e como se pode ajudar estas pessoas a profissionalizar e servir melhor o seu cliente final.
Uma característica que diferencia a facilidade de avaliação no mercado norte americano, quando comparamos com Portugal, é que estes profissionais não funcionam sobre o AMI da Agência, cada profissional é obrigado a ter a sua própria licença como empresários em nome individual, assumindo todos os riscos e responsabilidade que esta atividade que lida com a vida de pessoas e altos valores de investimento, exige.
No último INMAN Connect de 2025, tive acesso a um estudo, entre os vários que se fazem nos Estados Unidos que falava sobre a caracterização da profissão. O estudo foi feito pela REDFIN com dados de 2024.
Partilho aqui alguns dados para reflecção e comparação com aquilo que pode ser a realidade em Portugal tendo em conta que as 4 empresas líderes de mercado de Mediação Imobiliária Residencial, são de origem norte-americana e algumas, já operam cá há mais de 20 anos:
– 71% dos Agentes não fizeram uma única transação em 2024, o que quer dizer que o mercado é dominado por menos de 30% dos Agentes;
– 87% acredita na evolução do modelo de micro empreendedor independente;
– Mais de 30% não recomendaria a outro Agente a dedicação à atividade ao longo da sua vida;
O dado inicial de 71% pode assustar, mas o mesmo estudo verifica que restantes 29% que realizam uma ou mais transações por ano, a produtividade e faturação, tem sido valores cada vez mais elevados no que diz respeito a anos anteriores.
Segundo este estudo, os maiores desafios de 2024 para Agentes Imobiliários Norte-Americanos focaram-se em:
– Imprevisibilidade da faturação – 43%;
– Dificuldade na angariação de clientes com necessidades imobiliárias – 38%;
– Dificuldade em trabalhar em partilha com outros Agentes por diferenças que dizem respeito ao nível e qualidade de serviço – 28%;
– Dificuldade no fecho, devido ao facto de estarem num mercado cada vez mais competitivo – 20%;
– Falta de resultados de faturação sem qualquer faturação durante 2024 – 22%.
Já no que pretendem do seu Broker:
– 78% mais comissões e rappel;
– 55% mais Reputação da Marca, Agência e Broker;
– 55% mais suporte e formação;
– 52% melhor Cultura e Liderança;
– 48% mais tecnologia;
– 47% melhor e mais presença online;
– 44% mais apoio da estrutura;
– 36% mais leads;
– 24% melhor espaço físico para trabalhar (loja).
O estudo ainda colocou uma pergunta de resposta única, sobre um dilema muito debatido atualmente e que se traduziu na seguinte pergunta: “De uma forma geral, o que quer que o seu Broker faça por si?”:
– 55% respondeu que, invista menos em Tecnologia, formação e marketing e aumente as comissões.
– 45%, que invista mais em Tecnologia, Formação e Marketing, mesmo que isso diminua as minhas comissões.
Resumindo, enquanto em Portugal ainda se tenta contar os Agentes e saber basicamente quantos e quem são na realidade, nos países mais evoluídos, já se tenta perceber melhor quais são os seus desafios e dificuldades para melhorar e elevar o serviço que os líderes podem prestar à atividade de Mediação Imobiliária.
As associações do setor e quem regulamenta esta atividade, têm uma responsabilidade enorme para definir se há ou poderá haver mais e melhores profissionais neste setor.
Décadas vão-se passando e nada se faz de concreto para a Mediação Imobiliária Profissional e no caso em concreto, para os Agentes Imobiliários que se pretende realmente profissionalizar.
Artigo de Massimo Forte