18 de Março, 2026

Semana da Reabilitação Urbana: o mercado imobiliário residencial português não tem um problema de preços. Tem um problema de sistema.

Massimo Forte

Durante a Semana da Reabilitação Urbana em Lisboa ouvi-se falar de quase tudo: preços,
licenciamento, construção, investimento institucional, urbanismo, arrendamento, políticas
públicas.

Mas à medida que os painéis avançavam, começou a tornar-se evidente que a discussão não
era verdadeiramente sobre casas.

Era sobre o sistema que produz casas.

Porque quando juntamos os dados apresentados: valorização recorde, escassez de oferta,
bloqueios urbanísticos, novas dinâmicas de investimento e modelos emergentes como o
Build to Rent, surge uma conclusão difícil de ignorar:

O mercado imobiliário português não está caro apenas porque os preços subiram. Está
pressionado porque o sistema que produz habitação funciona abaixo da
velocidade da procura.

E enquanto isso não mudar, qualquer medida isolada terá sempre impacto limitado.

O paradoxo de um mercado que continua a subir

Um dos dados mais surpreendentes apresentados durante a semana foi simples, mas
revelador.

O ano de 2025 registou a maior valorização nominal do mercado habitacional português
desde 1988, com uma subida superior a 20%.

Mais curioso ainda foi o facto de o mercado ter acelerado quando muitos esperavam uma
estabilização.
Depois de uma subida próxima de 11% em 2024, o crescimento aproximou-se
dos 24% em 2025.

Lisboa, por exemplo, passou de cerca de 6% para 18% de crescimento anual.

Este comportamento contraria muitas leituras simplistas do mercado imobiliário.

Porque num contexto de taxas de juro mais elevadas e maior incerteza económica seria
razoável esperar algum abrandamento.

Mas isso não aconteceu.

A razão é estrutural: escassez persistente de oferta.

Quando o mercado não abranda… estrangula

Ao mesmo tempo que os preços continuam a subir, os volumes de transação começam a
mostrar alguns sinais de estabilização.

Num dos períodos analisados, o número de transações trimestrais caiu de cerca de 43 mil
para 39 mil.

À primeira vista isto poderia indicar um arrefecimento da procura. Mas vários analistas
levantaram outra hipótese. O mercado pode simplesmente estar a atingir o limite físico de
casas disponíveis para vender.
Quando a procura desaparece, o mercado abranda. Quando o
produto desaparece, o mercado estrangula.

A geografia da valorização está a mudar

Outro fenómeno importante observado nos dados apresentados é a mudança do mapa da
valorização. Durante mais de uma década, o epicentro da subida esteve concentrado no
centro histórico de Lisboa.
Hoje começa a surgir um padrão diferente.

A pressão de preços está a deslocar-se progressivamente para a Área Metropolitana de
Lisboa
, com destaque para municípios da margem sul como Barreiro, Moita, Seixal ou
Almada.

Ao mesmo tempo, alguns indicadores sugerem que o segmento premium da cidade pode ter
atingido um primeiro patamar de estabilização
depois de valores próximos dos 11.000
euros por metro quadrado em 2022.

O número que explica grande parte do problema

Entre todos os dados apresentados ao longo da semana, houve um que ficou a ecoar na sala.

Existem cerca de 60.000 fogos já projetados em Portugal cuja construção ainda não
começou.
Este número muda completamente a forma de olhar para o mercado.

Porque demonstra que o problema não é apenas falta de projetos. O problema está no
percurso entre projeto e casa construída.

Entre esses dois momentos surgem vários bloqueios: licenciamento longo, custos de
construção elevados, incerteza regulatória e financiamento mais exigente.

Build to Rent e o sistema português

Outro tema recorrente nos debates foi o crescimento do chamado Build to Rent.

Este modelo de edifícios pensados desde o início para arrendamento profissional, já ganhou
escala em vários mercados europeus.

Em Portugal, no entanto, continua a avançar de forma mais lenta.

O Build to Rent precisa de quatro condições fundamentais para ganhar escala:

  • estabilidade regulatória
  • previsibilidade fiscal
  • rapidez de licenciamento
  • escala urbana suficiente para atrair capital institucional

Sem estas condições, o investimento tende a avançar de forma pontual, mas dificilmente
cria um mercado estruturado.

Depois de vários dias de debate, a conclusão parece clara.

Portugal não tem apenas um problema de preços no mercado imobiliário residencial, tem
um problema de capacidade estrutural para produzir habitação ao ritmo que a sociedade
precisa.

Enquanto o sistema continuar a produzir menos casas do que aquelas que o mercado real
necessita, a pressão sobre os preços dificilmente desaparecerá.

O verdadeiro desafio do setor não é apenas discutir o mercado, é acima de tudo o de criar as
condições para que o sistema consiga finalmente acompanhar a procura
, algo que não
existiu nesta Semana da Reabilitação de Lisboa.

Partilhe a sua opinião


Massimo Forte
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.