Recrutar na Mediação não é suficiente para crescer
Recrutar na Mediação não é suficiente para crescer.
Uma frase poderosa que comprova a mais-valia do investimento que faço nos últimos anos de participar no Inman Connect em Nova Iorque, talvez o melhor evento de mediação imobiliária e tecnologia global, mas não só.
Neste último ano em fevereiro houve um tema crucial que tocou num nervo sensível e sempre muito doloroso para a mediação imobiliária norte-americana e também para a portuguesa: recrutamento e retenção.
Num mercado obcecado com dimensão, rankings e rotatividade de agentes imobiliários, várias sessões no evento deixaram bem claro que crescer pode significar coisas muito diferentes do que deveriam ser na realidade e que nem todas as métricas que hoje são seguidas, são efetivamente sustentáveis ou espelho de sucesso e liderança.
Neste evento não se abordaram as métricas típicas isoladas do recrutamento, mas sim o reflexo direto da visão, da cultura e da liderança das empresas na capacidade de atração, crescimento, retenção e liderança.
Crescimento rápido ou crescimento certo?
De um lado, a visão da escala acelerada alimentada por aquisições e fusões de múltiplas marcas. Do outro, uma abordagem mais contida, quase artesanal, centrada na cultura e na estabilidade das equipas.
Entre ambas, uma terceira forma de abordar política de recrutamento: crescer com método, sistemas bem definidos e clareza sobre quem se quer servir.
As várias sessões e até conversas entre líderes mostrou que não existe uma fórmula única (a tal fórmula mágica), existe, sim uma escolha estratégica que quando se decide abre consequências diretas para a definição do que vai ser a experiência do que significa ser um agente imobiliário.
A promessa implícita da liderança.
Um dos melhores momentos das várias conversas sobre o tema foi a reflexão sobre o impacto das aquisições e fusões nos agentes imobiliários.
Quando um broker vende a empresa ou se funde com outra, mesmo que o faça por razões legítimas, faz com que muitos agentes sintam que algo deixou de ser o que era, ou seja, o que antes era uma promessa implícita de estabilidade e identidade, deixa de existir.
É aqui que marcas independentes, com uma visão clara e assumidamente focadas em bem servir o cliente para ter como resultado disso, a tão desejada venda, ganham vantagem.
Não ganham vantagem por serem maiores, mas sim por serem previsíveis, e na mediação imobiliária, a previsibilidade gera confiança.
Escala exige infraestrutura. Sempre.
Alguns painéis sobre gestão de agências também foram honestos quanto aos riscos do crescimento acelerado.
Crescer rápido sem estrutura é a forma mais eficiente de perder pessoas. Tecnologia, processos, suporte e cultura não podem ser adicionados depois, têm de vir antes simplesmente porque são parte estrutural do projeto.
Quando existem sistemas claros, a escala pode ser uma alavanca poderosa, sem eles, transforma-se ação num ruído que afasta precisamente quem se queria atrair.
De todos para alguns.
Outra leitura interessante foi o posicionamento das estruturas de agências boutique.
Num mercado cada vez mais consolidado, há agentes imobiliários que não querem ser mais um número. Querem identidade, diferenciação, atenção, visibilidade, proximidade e espaço para crescer sem se diluírem.
Não é por acaso que começa a sentir-se o valor das empresas que apostam numa abordagem de serviço taylor made de mediação, muitas estão focadas para o mercado corporativo e muitas mesmo, têm visto a sua quota de procura a aumentar.
Curiosamente, muitos destes profissionais entram em grandes marcas por via de aquisições ou fusões e saem quando percebem que perderam aquilo que os fez escolher uma estrutura mais pequena.
Recrutar é fácil, construir pertença nem por isso.
Também retive esta mensagem simples, mas exigente.
Recrutar resolve problemas de curto prazo, reter exige liderança, exige cultura, exige coerência entre discurso e a prática.
Crescer com recrutamento só acontece quando se consegue reter e é na capacidade de reter que reside a liderança.
Num setor onde a mobilidade é elevada, as empresas que vão prevalecer não serão necessariamente as maiores, mas as que conseguem criar pertença, propósito e um caminho claro para os seus profissionais.
No fim, fica a ideia mais desconfortável, mas a mais verdadeira:
– Na mediação imobiliária, não é o mercado que faz as equipas, são as lideranças.
Artigo também divulgado em Outofthebox.