Inman New York | Entrevista a Ryan Serhant
Inman New York | 4 de fevereiro de 2026
Entrevista a Ryan Serhant
Há entrevistas que informam. Outras que inspiram. E depois há aquelas que ajudam a ler o futuro com alguma clareza. A conversa com Ryan Serhant, em Nova Iorque, foi claramente desta última categoria. Mais do que falar de crescimento, tecnologia ou redes sociais, Ryan apresentou uma visão coerente, e pouco consensual, sobre o que realmente cria valor na mediação imobiliária de hoje… e, sobretudo, de amanhã.
Crescer sem atalhos
Ryan foi direto: o crescimento não se compra, conquista-se. A sua empresa não entra em mercados por força de quotas, aquisições agressivas ou promessas vazias. Cada agente, cada cidade, cada resultado é “earned”. O exemplo de uma agente no Arizona, que fechou um negócio de 5,1 milhões de dólares usando as ferramentas da empresa, ilustra bem a lógica: valor gera adesão, não o contrário.
Conteúdo como infraestrutura de negócio
Aqui não se fala de posts soltos nem de vaidade digital. Fala-se de um verdadeiro motor de produção e distribuição de conteúdo, feito internamente, com qualidade de estúdio e mentalidade de plataforma, comparável a Disney ou Netflix, nas palavras do próprio. O foco é claro: audiência primeiro, edutainment, dados, segmentação e escala. O conteúdo não serve para “parecer grande”; serve para ligar imóveis a compradores reais.
O agente é o produto
Talvez o ponto mais provocador da entrevista. Para Ryan, o imóvel é secundário. O centro do ecossistema é o agente. A aposta não está em commoditizar listings, mas em multiplicar pessoas. Na sua visão, até 2030 sobreviverão à escala apenas dois grandes modelos: um orientado ao imóvel enquanto plataforma e outro, o seu, orientado à pessoa enquanto plataforma. Todo o investimento em cultura, tecnologia e liderança decorre desta premissa.
Capital com propósito
Depois de quatro anos bootstrap, a empresa levantou 45 milhões de dólares numa ronda relevante de proptech. Mas aqui não há narrativa de “exit”. O capital serve para construir, não para vender. Ryan mantém controlo estratégico, escolhe o board e ganha velocidade de execução sem abdicar da visão.
IA que liberta, não substitui
A tecnologia apresentada não é “mais um CRM”. É uma lógica AI-native pensada para eliminar trabalho administrativo e devolver tempo ao agente. A ambição é clara: um agente humano apoiado por equipas de agentes de IA, capazes de multiplicar por sete a sua capacidade. Não se trata de substituir pessoas, mas de lhes devolver foco, julgamento e relação.
Resultados que contam
Crescimento médio de 144% no GCI no primeiro ano. Mas Ryan foi pragmático: likes não pagam contas. O verdadeiro KPI está no 1099 (formulário de imposto americano para trabalhadores independentes/comissionados), no pipeline e na previsibilidade criada por um funil de distribuição bem desenhado.
Cultura jovem, acesso direto e ambição
Com uma idade média de 28 anos, a organização assume a Gen Z como vantagem competitiva. Acesso direto à liderança, mentalidade de startup e uma cultura onde performance e criatividade coexistem. Pequena por dentro, mesmo quando cresce por fora.
Habitação, acessibilidade e responsabilidade
Ryan não fugiu ao tema difícil: a habitação está cara e os mais jovens continuam a querer comprar, mas não conseguem. Falou de parcerias com a banca, de novos mecanismos financeiros, da libertação de terrenos federais e de uma revisão fiscal que volte a ligar habitação a criação de riqueza geracional.
Liderança com os pés no terreno
Apesar de CEO, Ryan continua a vender, negócios de dezenas de milhões incluídos. Não por ego, mas por convicção: liderar exige contacto com a realidade, com erros, com perdas e com vitórias.
Esta entrevista deixou uma ideia muito clara: o futuro da mediação imobiliária não será ganho por quem tiver mais imóveis, mas por quem souber desenvolver melhor as pessoas. Com propósito, cultura, tecnologia bem aplicada e uma leitura lúcida do mercado. Ryan Serhant não está a construir apenas uma empresa. Está a defender um posicionamento, onde o agente volta a ser o centro, a IA é aliada e o crescimento é consequência, não obsessão.
E isso, num setor tantas vezes viciado em atalhos, é tudo menos irrelevante.