Compramos casas mais caras do que nunca. Sabemos como vão resistir ao inverno que aí vem?
Dois profissionais do imobiliário querem democratizar o acesso à informação técnica antes de comprar casa
João Luís Carvalho, arquiteto, e João Cunha, engenheiro civil, criaram a BLEPO depois de 12 anos a trabalhar dentro do setor e de perceberem que uma das decisões financeiras mais importantes da vida continua a ser tomada, muitas vezes, sem informação técnica independente.
Comprar uma casa é uma das decisões financeiras mais importantes que fazemos. E o mercado imobiliário português continua a viver um dos momentos mais quentes dos últimos anos. Compra-se mais, compra-se mais caro, compra-se muitas vezes e mais depressa do que o tempo que seria preciso para perceber verdadeiramente o que se está a adquirir.
Ao mesmo tempo, o país vive episódios meteorológicos extremos com cheias, chuva forte e trovoada. Episódios estes que são um sinal de um padrão climático cada vez menos previsível.
A pergunta que fica por responder é simples e, ao mesmo tempo, incómoda: Com os fatores meteorológicos extremos que tendem a aumentar o que está reservado para os meses em que a chuva forte e as tempestades são esperadas? E, mais importante para quem está a comprar casa agora: quantas dessas casas, incluídas no atual boom de transações, foram sequer avaliadas quanto ao risco de exposição a fenómenos climáticos antes de mudarem de dono?
Foram estas questões e a realidade vivida no setor imobiliário, que levaram João Luís Carvalho, arquiteto, e João Cunha, engenheiro civil, a criar a BLEPO, uma empresa portuguesa que quer democratizar o acesso ao diagnóstico técnico de imóveis e colocar, pela primeira vez para muitos compradores, um arquiteto ou engenheiro independente do seu lado da decisão.
Os dois fundadores trabalharam juntos durante 12 anos na Melom, conhecendo o setor imobiliário por dentro. A ideia para a BLEPO ganhou forma quando João Luís Carvalho começou também a investir em imóveis e encontrou repetidamente problemas que não eram percetíveis numa visita normal: patologias escondidas, problemas nas partes comuns, obras inesperadas e questões que só surgiam depois de fechado o negócio.
A constatação foi simples: “se até alguém com experiência no setor tinha dificuldade em identificar todos os riscos de um imóvel, o problema seria ainda maior para quem não tem formação técnica”, refere João Carvalho. Daí nasceu a pergunta que deu origem à BLEPO: porque é que não existe uma forma simples de colocar um arquiteto ou engenheiro do lado de quem compra?
| Democratizar aquilo que até agora estava reservado aos profissionais |
Existem serviços de due diligence imobiliária, mas estão tradicionalmente associados a investidores profissionais, fundos, banca e grandes operações, com uma abordagem altamente técnica.
João Luís Carvalho e João Cunha quiseram pegar nessa lógica e torná-la acessível ao consumidor comum.
A BLEPO transforma a informação técnica numa camada simples, padronizada e compreensível, com diferentes níveis de diagnóstico. O objetivo não é transformar o comprador num especialista em engenharia, mas dar-lhe informação suficiente para perceber o que está a comprar e quais os riscos envolvidos.
| A pergunta que pode mudar a forma como compramos casa |
Para os fundadores, o problema deixou de ser apenas “há uma infiltração?” ou “há uma fissura?”. Num contexto de alterações climáticas e de fenómenos meteorológicos cada vez mais extremos, é também necessário perceber o risco associado ao edifício e à localização.
As tempestades que atingiram Portugal no início de 2026 tornaram essa questão ainda mais urgente. Para a BLEPO, a pergunta que deve passar a fazer parte de qualquer decisão imobiliária é:
Qual é o risco desta casa?
Risco ambiental. Risco edifício. Risco da fração. E, cada vez mais, risco associado ao local onde a casa está.
A ambição dos fundadores é que uma inspeção técnica antes de comprar uma casa se torne tão natural como pedir uma avaliação bancária e que a informação chegue ao comprador “antes da escritura, e não depois da primeira infiltração, da primeira obra inesperada ou da próxima tempestade”, alerta João Cunha.
| Tecnologia para tornar o acesso massivo |
A BLEPO disponibiliza atualmente cinco tipos de diagnóstico, com diferentes níveis de profundidade. Na fase beta, o produto de referência – a Inspeção Técnica- tem um custo de 600 euros, cerca de 0,25% do valor médio de uma transação imobiliária, permitindo identificar problemas que podem representar milhares ou dezenas de milhares de euros em custos futuros.
A tecnologia e a Inteligência Artificial permitem aos fundadores ambicionar levar este modelo a todo o país. A BLEPO desenvolveu uma plataforma que estrutura e padroniza o trabalho de inspeção através de um workflow, permitindo replicar a metodologia através de uma rede de arquitetos e engenheiros independentes, tornando o serviço mais acessível e eficiente.
A empresa opera atualmente na Grande Lisboa e tem capacidade para cerca de 500 inspeções por mês. O plano prevê expansão para o Porto, cobertura nacional em 24 meses e entrada em Espanha no início do terceiro ano, com uma meta de 5 milhões de euros de faturação em três anos.
| Mais do que uma empresa, um novo comportamento |
João Luís Carvalho e João Cunha não querem apenas criar um novo serviço imobiliário. Querem “mudar a relação de poder e de informação numa das maiores decisões financeiras das famílias”, salienta João Carvalho.
A BLEPO não vende casas, não faz mediação e não decide pelo comprador. Observa, analisa e documenta o imóvel para que a decisão seja tomada com mais informação. Porque, para os seus fundadores, “uma casa bonita não é necessariamente uma casa segura. E olhar não chega. É preciso ver melhor para decidir melhor”, resume João Cunha.
| SOBRE A BLEPO |
A BLEPO nasceu da vontade de João Luís Carvalho e João Cunha – um arquiteto e um engenheiro civil com 12 anos de trabalho conjunto – de tornar as inspeções e diagnósticos imobiliários acessíveis a qualquer comprador ou senhorio, e não apenas a investidores profissionais.
A empresa opera atualmente na Grande Lisboa, através de uma rede de arquitetos e engenheiros independentes afiliados, e tem capacidade de realizar cerca de 500 inspeções por mês. Disponibiliza cinco tipos de diagnóstico e pretende expandir a operação para o Porto, alcançar cobertura nacional num horizonte de 24 meses e entrar numa primeira cidade espanhola no início do terceiro ano.
“Antes de decidir, ver melhor” é a ideia que está na origem do nome BLEPO, que em grego significa ver melhor e que resume a missão da empresa: tornar a informação técnica sobre os imóveis mais simples, acessível e útil para quem compra, vende ou arrenda.