Quem entra pela mão de um recrutador, sai por causa de outro.
Nos últimos meses tem-se assistido, com alguma naturalidade por uns, surpresa para outros, a várias aquisições e fusões entre players da mediação imobiliária, seja em Portugal como do outro lado do oceano.
É possível que este tipo de situações possa até intensificar-se, mesmo a nível nacional e gere muitos artigos de opinião sobre as fusões e as suas narrativas de poder, contudo, para a maioria dos agentes e clientes, a consolidação dessas empresas, sejam elas pequenas, grandes ou médias, é apenas ruído.
O que permanece decisivo é a cultura, a proximidade e a forma como se trabalha, ou seja como se vende, angaria, recruta, integra e lidera.
Crescer é uma opção, e não uma obrigação, assim sendo, nem todo o crescimento é bom crescimento, nem toda a ambição precisa de escala e nem todas as aquisições fazem sentido.
A decisão de crescer, seja por via orgânica, como por aquisições, ou fusões, deve estar alinhada com aquilo que os líderes das empresas querem construir para o seu negócio e para o se legado.
Há estruturas que funcionam melhor pequenas, hiper-locais, profundamente ligadas à sua comunidade. E isso não é uma fraqueza, é sim uma estratégia.
Do lado das grandes plataformas, ficou claro que a consolidação só cria valor quando três condições estão presentes:
- alinhamento de cultura;
- criação de valor financeiro;
- capacidade real de integração.
Sem cultura alinhada e partilhada por todos, a aquisição pode destruir valor.
Sem integração, a escala torna-se ineficiente.
Sem uma proposta clara para os agentes, a retenção falha.
Crescer não passa apenas por comprar empresas, passa sim por saber integrar culturas, pessoas e processos com uma visão futura. Mas principalmente, crescer passa por saber passar da visão, à ação.
A base do negócio da Mediação Imobiliária continuará a ser o recrutamento, seja com ou sem broker, e o recrutamento iniciará sempre pela liderança, por isso, o recrutamento não é passível de se delegar totalmente e principalmente a alguém externo.
Pode apoiar-se em tecnologia, equipas e processos, mas a atração de talento de topo exige para além de campanhas o envolvimento direto da liderança.
Os agentes de alto nível não entram por scripts ou narrativas, entram por consistência de ação, relação, visão e confiança e há uma verdade dura:
– Quem entra pela mão de um recrutador, sai por causa de outro.
As marcas que vencem mantêm listas curtas, criteriosas, quase pessoais de quem querem atrair.
Não querem recrutar menos, querem recrutar melhor.
E quanto à inteligência artificial no meio disto tudo. Nem medo, nem euforia. Pragmatismo.
O uso de IA para delegar responsabilidades, só faz sentido quando resolve problemas reais do negócio e não de liderança.
IA para automatizar tarefas não produtivas, garantir consistência de marca, acelerar processos de marketing e libertar tempo para aquilo que gera receita:
- Relação;
- Aconselhamento;
- Fecho.
Quando o uso de IA reforça a proposta de valor, construir processos e sistemas internamente, pode ser mais estratégico e mais barato, do que comprar soluções genéricas sem saber usar nem 10% do seu potencial.
Em 2026 haverá mais consolidação entre players, teremos mais barulho, e mais narrativas de poder.
Mas a atividade de mediação imobiliária continuará a ser ganha por quem joga o seu próprio jogo:
- Cultura forte;
- Recrutamento intencional;
- Liderança presente;
- Tecnologia ao serviço das pessoas e não no lugar das pessoas.
No fim, não serão as maiores estruturas a vencer. Serão as mais alinhadas, as mais humanas e as mais coerentes.
Artigo também publicado no Imovirtual.