PropTech, IA e o regresso ao essencial: para onde vai o investimento imobiliário
Uma das entrevistas mais reveladoras que assisti no último INMAN Connect foi com o Brendan Wallace CEO da Fifth Wall, maior gestora de ativos focada no cruzamento entre o imobiliário e a tecnologia, Brendan trouxe uma leitura fria, honesta e extremamente atual sobre o que está realmente a mudar no investimento em prop-tech, e, sobretudo, sobre o que deixou de entusiasmar.
Depois de uma primeira vaga de entusiasmo em 2016–2017, focada na habitação unifamiliar e na redução da fricção das transações residenciais, o capital desviou-se durante alguns anos para o imobiliário comercial. Hoje, o movimento é claro: estamos de volta ao ponto de partida. Não por nostalgia, mas por constatação. O mercado residencial continua extraordinariamente ineficiente. Processos lentos, opacos, burocráticos e pouco amigáveis para o consumidor permanecem a norma. A promessa de uma transação simples e transparente nunca foi totalmente cumprida. É aqui que a Inteligência Artificial surge como novo catalisador.
A diferença agora é estrutural. Já não se trata de “adicionar IA” a plataformas antigas. O interesse está em soluções AI-native, desenhadas de raiz com a IA no centro. Ferramentas como a Berenzi não existem para substituir o agente, mas para o tornar melhor, mais rápido, mais informado e mais relevante.
Ao fornecer inteligência imediata sobre potencial construtivo, zonamento ou valor latente de um imóvel, estas plataformas colocam o agente num lugar de autoridade que antes exigia tempo, técnicos e custos elevados. O valor do agente deixa de ser apenas relacional e passa a ser também informacional.
Paralelamente, surge uma segunda linha de investimento aparentemente contraditória: plataformas alternativas ao agente tradicional, como a Rhythm. Mas a tese, mais uma vez não é de substituição, é de expansão de mercado. Estes modelos captam vendedores altamente sensíveis ao preço e orientados para o “faça você mesmo”, que muitas vezes nem sequer entrariam no mercado tradicional.
No curto prazo, o impacto nas comissões é marginal. No longo prazo, cria-se pressão competitiva. E essa pressão não penaliza os bons profissionais, penaliza os indiferenciados. Tal como na advocacia ou na consultoria, haverá sempre espaço para o profissional humano de elevada confiança, desde que saiba usar a tecnologia a seu favor.
Um dos pontos mais surpreendentes da entrevista foi a leitura sobre o colapso do investimento dedicado em climate tech imobiliário. Apesar de o setor ser responsável por cerca de 40% das emissões globais, o capital saiu de forma abrupta. Mais do que um tema económico, foi um tema cultural.
O impulso inicial foi moral. Mas a moral muda mais depressa do que os fundamentos económicos. Instituições, investidores e consumidores deixaram de priorizar a descarbonização como critério central de decisão. Fundos fecharam, empresas desapareceram e o tema regressou ao plano secundário. O investimento climático não desapareceu, mas deixou de justificar fundos dedicados.
Finalmente, a mensagem mais transversal da entrevista: a IA vai criar uma clivagem clara entre profissionais. Não entre humanos e máquinas, mas entre curiosos e resistentes. A tecnologia vai automatizar tarefas repetitivas e libertar tempo para aquilo que realmente cria valor. Quem adota cedo ganha escala, eficiência e diferenciação. Quem ignora, perde relevância.
O futuro do imobiliário não será definido por quem tem mais ferramentas, mas por quem sabe usá-las para servir melhor. O capital já percebeu isso, agora só falta que o setor acompanhe e se empenhe.