Entrevista – Revista Vida Imobiliária | Convenção APEMIP IMOCIONATE
Qual a sua expetativa para a Convenção APEMIP IMOCIONATE de 2026? Qual a importância/pertinência deste evento?
Já não participava no IMOCIONATE há alguns anos. Tive o privilégio de organizar as duas primeiras edições e de participar como orador na terceira, pelo que voltar agora tem, para mim, um significado especial. Esta edição gera-me grande expectativa, sobretudo pela relevância e atualidade dos temas que irão ser debatidos. Acredito que será um momento importante de reflexão estratégica sobre o futuro do setor imobiliário e da atividade da mediação imobiliária em Portugal.
Que tendências atuais identifica no mercado português que valham a pena destacar? E porquê?
Destacaria claramente dois grandes movimentos: a inteligência artificial aplicada à mediação imobiliária e a consolidação de novos modelos de negócio assentes em equipas de agentes imobiliários cada vez mais profissionalizadas. A IA irá transformar profundamente a forma como comunicamos, analisamos dados, qualificamos clientes e gerimos processos. Ao mesmo tempo, os modelos colaborativos e estruturados de equipas trazem mais especialização, escala, eficiência e qualidade de serviço ao consumidor.
Na sua visão, qual o papel que a mediação imobiliária pode (e quer) ter no desafio da habitação em Portugal?
A mediação imobiliária tem um papel absolutamente determinante no mercado habitacional português. No entanto, continuamos sem dados públicos suficientemente claros sobre a dimensão real da atividade, o número efetivo de profissionais em exercício ou o volume de transações mediadas anualmente. Ainda assim, estimativas apontam para dezenas de milhares de profissionais e para uma quota muito relevante na intermediação das transações habitacionais.
Se estes números estiverem próximos da realidade, torna-se evidente a enorme responsabilidade que a mediação imobiliária tem perante o mercado e perante os consumidores. Nesse sentido, será fundamental continuar a evoluir para uma atividade mais qualificada, mais exigente e mais responsabilizada, através de uma legislação moderna, rigorosa e ajustada à importância do setor. Paralelamente, considero essencial reforçar uma cultura de ética, transparência e profissionalismo transversal a toda a classe.
Tendo em conta as novidades legislativas apresentadas para a habitação este ano, e que entraram recentemente em vigor, quais espera que tenham mais impacto e porquê?
De uma forma geral, considero positivas várias das medidas recentemente apresentadas. Talvez tenham surgido mais tarde do que seria desejável, mas representam sinais importantes de tentativa de resposta a um problema estrutural que se foi agravando ao longo dos últimos anos. O mercado imobiliário tem dinâmicas lentas e, por isso, será necessário algum tempo para percebermos o verdadeiro impacto destas alterações e se conseguirão contribuir de forma efetiva para atenuar a crise habitacional em Portugal.
Relativamente ao futuro da profissão da mediação imobiliária, quais são, no seu entender, os principais desafios e oportunidades para os próximos anos?
O grande desafio continua a ser a dignificação da profissão. Isso exige responsabilidade de todos os intervenientes do setor. Uma nova legislação poderá ser importante, mas não será suficiente se não existir capacidade efetiva de aplicação, fiscalização e cumprimento.
A inteligência artificial será também um dos maiores desafios da próxima década. Trata-se de uma ferramenta extraordinária para aumentar produtividade, eficiência e capacidade analítica, mas poderá igualmente tornar-se um obstáculo caso substitua aquilo que é mais importante nesta profissão: a relação humana, a confiança e a capacidade de compreender pessoas.
Outro ponto essencial será a evolução dos modelos de negócio. O mercado caminha progressivamente para formas de trabalho mais transparentes, mais especializadas e mais orientadas para a representação efetiva dos interesses de uma das partes na transação.
Por fim, será cada vez mais importante perceber que um bom profissional imobiliário não é alguém que sabe tudo sobre o imobiliário, mas sim alguém altamente especializado na transação imobiliária, no seu nicho, na sua zona e no tipo de produto com que trabalha.
O que é essencial para se ser um broker de sucesso hoje em dia?
Hoje, ser broker ou mediador imobiliário significa sobretudo liderar pessoas. A componente transacional continuará a ser importante, mas o verdadeiro diferencial está na capacidade de recrutar, desenvolver, formar, inspirar e fazer crescer talento.
Por isso, num mundo onde a IA parece-se ser o centro das atenções, as competências de liderança e inteligência emocional tornaram-se absolutamente imprescindíveis, ou não fosse este um negócio de pessoas para pessoas. Cada vez mais, um broker de sucesso será aquele que consegue construir cultura, gerar alinhamento e atrair profissionais com potencial para crescer dentro da atividade. Talvez até devêssemos deixar de falar apenas em recrutamento e começar a falar mais em seleção e desenvolvimento de talento.
Outros pontos que considerem pertinentes neste contexto.
Acredito que a mediação imobiliária em Portugal ganhará muito mais força se conseguir evoluir de forma mais unida, respeitando as diferenças entre modelos, culturas empresariais e sistemas de negócio.
O mercado imobiliário é, por natureza, heterogéneo. Existem diferentes formas de trabalhar, diferentes visões e diferentes posicionamentos. E isso não deve ser encarado como uma fragilidade, mas sim como uma riqueza do próprio setor.
Talvez hoje faça mais sentido do que nunca defender um princípio simples: todos diferentes, todos importantes, todos responsáveis pelo futuro da mediação imobiliária.
Entrevista publicada na Vida Imobiliária.