A crise da habitação não é só falta de casas. É falta de verdade.
Inspirado na entrevista ao Idealista
Fala-se muito de falta de oferta. Fala-se pouco de falta de clareza.
A crise da habitação em Portugal não é apenas um problema estrutural. É também, e cada vez mais, um problema de comunicação. Não porque não se fale, até se fala muito. Mas porque se fala com menos clareza, de forma fragmentada, muitas vezes enviesada, e quase sempre sem responsabilidade partilhada.
Quando comunicamos para especialistas, a mensagem até chega. Quando comunicamos para o público em geral, criamos ruído, e o ruído por vezes custa caro.
Habitar não é apenas possuir. Este é talvez o maior erro conceptual que alimenta a pressão sobre o mercado. A ausência de uma narrativa clara sobre o arrendamento, enquanto solução estrutural, é um dos maiores falhanços da comunicação atual. Vive-se numa comunicação especulativa em que todos ganham com muito facilitismo: pequenos e médios investidores, agentes imobiliários, mediadores… será mesmo assim?
Depois entra o marketing, e alguma propaganda.
Seth Godin dizia que “o marketing é mentiroso”. Não porque tenha de o ser, mas porque pode ser. E o mercado do imobiliário, demasiadas vezes é, principalmente na parte da transação, que é no fundo aquela mais sensível ao consumidor final.
Promessas de valorização irreal. Narrativas construídas para vender medo ou urgência. Informação que parece conhecimento, mas que não passa de opinião embalada.
Aqui, os media têm uma responsabilidade acrescida. Informar não é amplificar. É filtrar, contextualizar e explicar.
E depois há a confiança, aquilo que todos queremos e precisamos.
A confiança não se constrói com campanhas. Constrói-se com consistência de factos e conhecimentos reais.
Num setor onde a decisão de compra é uma das mais importantes da vida de uma pessoa, comunicar mal não é apenas um erro, é sobretudo um risco sistémico.
A comunicação falha quando promete demais e entrega de menos. Quando simplifica em excesso ou complica por conveniência. Quando serve interesses isolados em vez de um ecossistema.
E sim, a comunicação pode ser parte da solução.
Mas isso exige mais diálogo, mais transparência e, sobretudo, mais coragem para dizer o que não é popular, mas é necessário.
Porque no fim, não faltam apenas casas.
Falta confiança para tomar decisões sobre elas.